Com a mesma pessoa há 60 anos? Como?

avô.jpeg

60 anos Gabriela? – indagou ele, antes de começar a conversa.

Há uns 60 anos atrás, tudo bem, uns 55, conheci uma mulher incrível, cabelos longos, determinada, teimosa ainda que repetidas vezes que era flexível, só dormia feliz quando a toalha estava do lado “certo”,  conhece as mulheres né, sabe como funciona. Ela acordava sempre antes que eu, como se quisesse fazer uma surpresa, colocava a mesa do café e por mais que isso se repetisse mil vezes, sempre esquecia alguma coisa,  eu, tentando contornar, lhe dava um beijo e fingia nem ter percebido, fase de conquista né? Não dá para se apegar demais.

Aproximadamente 10 anos depois, me apaixonei. Desta vez foi tudo diferente, ela era diferente, mais confiante. Casamos, construímos uma família,  conseguiu criar seis filhos quase que de supetão, cabra macho né minha filha, homem de antigamente não tem dessas frescuras não, ficar de conversinha nesse zapzap ai. Eu insistia em falar que fazia tudo sozinho, que era o rei, eu punha comida na casa afinal. Ela? Ela fazia com que valesse a pena todo o sacrifício, ela era minha paz no fim de cada dia.

Passaram-se os anos me deparei com uma mulher de cabelo curto, já um pouco grisalho, realizada, vida encaminhada sabe? Filhos criados, não teve jeito, foi paixão a primeira vista, só podia ser amor. Ela servia meu café com maestria, nunca faltou um detalhezinho, até o garfo, posso quase apostar que era milimetricamente colocado ali, nada, nada mesmo fugia do seu controle. Ô mulher porreta essa viu, conseguia ser onipresente. Nesses tempos eu já nem trabalhava mais e ela conseguia conciliar meus filhos, a casa, os amigos e o nosso amor, ah o nosso amor.

Há dois anos fraquejei, abri mão de sair, dos meus jogos de baralho, do meu dia-a-dia na praça. A essa altura, eu já nem esperava nada demais, confesso. Foi quando eu conheci ela, ô mulher forte, quem via aquela mulher mirradinha, com os cabelos muito mais brancos do que grisalhos, mal poderia imaginar a fortaleza por trás dessa “carcaça”. Ela me acompanhou nas rotinas diárias, nas médicas – chega um ponto da vida minha filha que qualquer dorzinha vira alarde, até por gases já fui pro hospital com suspeita de enfarto, eu mesmo, não acredito –  Esta se tornou minha melhor companhia, minha melhor amiga. Nem sei se teria chegado até aqui sem ela. Minto… eu sei, eu não estaria em lugar algum sem ela.

Perdi as contas minha filha, quantas histórias te disse? Sabe como é a idade, às vezes a gente esquece uma coisinha ou outra pelo caminho…Quer saber? Não importa, todas essas eram amor, eu me apaixonei por todas elas, perdidamente.

Ai vem você me perguntar como é estar a 60 anos com a mesma mulher? Me desculpe minha filha, não sei te dizer não, eu me apaixonei por todas elas, afinal de contas, ninguém consegue ficar com a mesma mulher sempre não.

Sorte a minha que ela mudou, me deu a chance de me apaixonar de novo. Tantas e quantas vezes, por todas as mulheres que ela foi para mim.

couple

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s